sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

"Preso" - Prólogo

À semelhança do que fiz o ano passado, vou deixar aqui o prólogo da história que escrevi durante este mês de Novembro, e que terminei há quatro dias. Chama-se "Preso", e fala de um homem que é preso injustamente. Confiram vocês mesmos este "capítulo 0"; o que vos dou a ler é 1/50 da história total =D


Entrei pelo beco às escuras; já o sol se tinha posto há duas horas, e o frio característico daquela época do ano se fazia sentir. Levava comigo uma lanterna, pois caso contrário não veria o que estava a dois palmos da cara, e isso era perigoso – especialmente ali. Fui avançando, sempre olhando para os dois lados da estreitíssima rua. Duas pessoas lado a lado teriam dificuldade em andar ali sem ficarem entaladas. Por isso, nada me podia escapar. Ele tinha de estar ali, ao fundo, como prometera. À medida que me ia aproximando, ia, no entanto, pensando em como fora tão estúpido em acreditar nele. A minha lanterna apontava em todos os ângulos possíveis (que não eram muitos), e não o vi. Cheguei ao fundo do beco e toquei com a minha mão enluvada na fria parede – a temperatura passava através do cabedal para ir chegar aos nervos sensitivos da ponta dos dedos. Era de cimento e parecia estar bastante velha e gasta. Erguia-se dois metros acima do chão. Nem de bicos dos pés conseguia espreitar para o outro lado.
Virei-me instintivamente para trás, como que receando uma emboscada. Receando o quê? Estou a enlouquecer, de certeza… quem me quereria mal? Mas de imediato a sensação de exposição e de encurralamento voltava, e só me apetecia fugir dali para fora. O som de passos vindos do início do beco obrigou-me a desligar a lanterna, de forma discreta. Seria ele? Seria outro ele? Mesmo no meio de toda a escuridão e sem um único espelho que o pudesse confirmar, acho que empalideci.
O homem que se aproximava (ou seria uma mulher?) ligou uma lanterna, ofuscando-me a vista. Então, continuou a aproximar-se, mesmo depois de provavelmente me ter visto ali. A minha voz tentava articular uma pergunta que se espalharia por toda a estreita rua. Quem és tu? Mas acho que as minhas cordas vocais nunca se chegaram a tocar. Com um arrepio a percorrer-me as costas e cima a baixo, coloquei as mãos no cimo da parede de cimento que estava atrás de mim, e com um impulso consegui subir para cima. O som de passos no lado do beco aumentou de frequência. Quem quer que fosse, estava agora a correr. Sem pensar duas vezes saltei para o outro lado da parede e tentei ligar a lanterna, enquanto corria. Estaria a encurralar-me ainda mais? Confirmei as minhas suspeitas ainda antes de conseguir apontar o foco de luz para a frente, quando esbarrei contra uma outra parede. Caí, meio zonzo, em cima de um monte de lixo. Ouvia o som de patinhas de ratos que se espalhavam apressadamente, receosos do novo intruso ao seu banquete. Apontei a lanterna para cima, e reparei que estava perante paredes ainda mais altas. Um prédio à frente, à esquerda e à direita. Nenhum deles tinha janelas para o lado onde me encontravam, mas à minha volta encontravam-se portas metálicas e enferrujadas, como se não fossem usadas há anos. Apontei a lanterna para o local de onde tinha vindo, e vi um homem (sim, era um homem), a saltar também ele, com facilidade, a parede do beco que eu mesmo saltara. Recuei, amedrontado, e aí sim, gritei. Mas não exactamente o que desejava gritar. Toldado pelo medo, ouvi-me a mim mesmo:
- Pára!
O homem não parou. Que lhe queria ele? Talvez quisesse dinheiro. Eu não tinha nada ali de valor. Senti-me tão estúpido no momento em que me apercebi do que tinha no bolso – um telemóvel. Mas agora era tarde demais de ligar para quem quer que fosse. Dentro de quatro segundos ele estaria por cima de mim, talvez com uma faca, talvez com uma pistola – ou simplesmente com dois valentes murros que me poriam a sangrar abundantemente. Os ratos tratariam do resto. Instintivamente, ergui os meus dois braços em frente ao meu tronco, em sinal de defesa.
Infelizmente para mim, aquele homem parecia tudo menos um homem. Apesar de não lhe ver a cara, a força que ele usou para afastar os meus braços como quem muda de lugar uma jarra de flores e com que me agarrou no pescoço e o apertou como quem esmaga uma folha de papel pôs-me fora de mim. Conseguia sentir a sua respiração. Encostou-me à parede do prédio atrás de mim. Não conseguia respirar. Não conseguia emitir nenhum som. E, então, aconteceram uma série de coisas ao mesmo tempo. Ouvi um tiro, muito próximo, de tal forma que me fez estalar os ouvidos. Depois a mão do homem que me estava a atacar parou abruptamente de fazer força, e este deixou-se cair no chão a meus pés. Eu deixei-me ficar encostado ao muro, ofegante, tentando retomar a minha respiração normal. Tal era impossível, visto a velocidade com que o meu coração batia. Então alguém acendeu uma lanterna mesmo à minha frente, a menos de um metro. Tal como da outra vez, fiquei ofuscado pela luz. Mas, fosse quem fosse aquela pessoa, acabara muito provavelmente de matar alguém havia poucos segundos. Mesmo tendo-me salvo a vida, não era alguém com quem eu pudesse estar descansado. Talvez a minha vez fosse a seguir. Então, ele falou.
- Se tivesse chegado mais dez segundos atrasado, já não estavas vivo, Luís.
Quando ouvi a voz dele, deixei-me cair, descansado, sobre o monte de desperdícios e de nojices que ali se encontravam, e mesmo ao lado do homem morto, mas nem me importei com isso. Sentia o frio à minha volta, como se fizesse parte de mim. Ri-me nervosamente, um pouco mais descansado. Era ele, o Ricardo, a pessoa de quem eu fora ali à procura. Mesmo na escuridão, consegui ver a silhueta de uma mão esticada para mim, para me ajudar a levantar. Aceitei, a custo, e lá estava eu de pé. Ele desligou a lanterna e resmungou qualquer coisa.
Em seguida, aconteceu qualquer coisa que eu não estava minimamente à espera. Ouvimos sirenes de um carro da polícia a parar mesmo à entrada do beco. Eram vários carros, pelo aparato que conseguia escutar. Holofotes foram ligados, mas não nos chegaram a iluminar, visto que estávamos protegidos pela parede intermédia que eu saltara.
O impensável aconteceu. Ricardo, tomado por qualquer coisa fora do normal, apontou a pistola que trazia na mão à sua própria cabeça. Também ele trazia calçadas umas luvas pretas. Vi isto porque a luz dos holofotes da polícia era tão forte que, não nos incidindo directamente, reflectia-se nos prédios que nos cercavam atrás, à esquerda e à direita e nos iluminavam. Abri a boca, horrorizado com o que ele estava a fazer.
- Lamento, Luís. – disse ele, afastando-se de mim quatro passos enquanto falava – A sério que lamento. Mas não posso. – parecia estar a tentar convencer-se a si próprio. – Não posso. Não consigo. – e finalizou - O dinheiro e o porquê disto tudo está na segunda à esquerda.
E então disparou para si mesmo, sem me dar tempo sequer de me aproximar ou de dizer qualquer coisa. Oh não. Que raio de noite era aquela? Porque fizera Ricardo aquilo? Então um, dois, três polícias, seguidos de mais uns quantos, saltaram a parede de dois metros que dividia o beco em dois, e aproximaram-se de mim com armas na mão. Prenderam-me as mãos atrás das costas e colocaram-me um pano negro a tapar-me a cabeça. Passou tudo tão rápido que não me lembro de ter tido noção de mais coisas. Mas sei que havia estado às portas da morte, tinha visto a pessoa que me salvara a vida morrer, e que agora ia, muito provavelmente, ser acusado de assassínio por aqueles dois corpos que supostamente estavam no chão, mas que agora já não via (nem queria ver), devido ao capuz que me toldava a visão.
Senti lágrimas verterem dos meus olhos. Lágrimas tão quentes, que contrastavam tão bem com aquela noite tão fria.

Tiago.

5 comentários:

De Amor e de Terra disse...

Olá Tiago, boa tarde.
Vim somente para agradecer e retribuir os votos; desejo-te, para 2009 e para sempre, Paz, Amor e Luz.

Voltarei em breve para ler e comentar.

Maria Mamede

Isa disse...

Tiago,meu jovem AMIGO,continua o teu caminho na escrita.Ñ pares!:)
Beijoo.
isa.

Kath disse...

Achei giro, apesar de não ser o meu género. ^^

Francisco Norega disse...

Gostei =p Altamente!

Tens melhorado imenso a tua escrita ;)

Bento disse...

Vim do exterior...e acabei aqui a reflectir...você escreve muito bem...e tem um bom blog...vou ser visita assídua...